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Blindagem patrimonial tem limite

  • Foto do escritor: Julia Dill
    Julia Dill
  • há 1 dia
  • 9 min de leitura

O caminho jurídico para responsabilizar empresas do mesmo grupo econômico

 

 

Imagine o seguinte cenário: uma securitizadora adquire uma carteira de recebíveis de uma empresa que, na prática, integra um grupo econômico consolidado. O cedente enfrenta dificuldades financeiras, e logo os credores iniciam execuções. A empresa devedora não tem bens. A execução trava, mas o grupo do qual ela faz parte prospera — com outras empresas operando, faturando e acumulando patrimônio. A pergunta que ninguém quer ouvir — mas que frequentemente chega à mesa do jurídico e do gestor — é: existe um caminho legal para alcançar esses ativos?

 

A resposta é sim. E para gestores de FIDCs, estruturadores de operações de securitização e assessores do mercado de capitais, essa não é uma questão apenas teórica. Ela impacta diretamente o rating de uma operação, o grau de subordinação das cotas e, em última análise, o retorno do investidor.

 

O tema é grupo econômico: um dos institutos mais mal compreendidos — e mais litigados — do direito empresarial brasileiro. O caminho existe e tem nome: o Incidente de Desconsideração da Personalidade Jurídica (IDPJ), mas ele tem requisitos precisos e uma jurisprudência do STJ que, nos últimos anos, ficou ainda mais exigente quanto à qualidade da prova. Este artigo mostra como percorrê-lo com chances reais de êxito.

 

 

PASSO 1

 

Reconhecer o grupo econômico: o ponto de partida

 

Antes de qualquer pedido de desconsideração, o credor precisa demonstrar que as empresas que pretende responsabilizar integram, de fato, um grupo econômico com a devedora. Grupos formais — com convenção registrada pela Lei das S.A. — são excepcionais na prática empresarial brasileira. O que o credor vai encontrar na prática são grupos econômicos de fato, identificados por sinais concretos de integração.

 

“A organização da atividade empresária sob a forma de grupo se caracteriza pela mitigação da autonomia da pessoa jurídica, tanto no aspecto patrimonial quanto organizacional, evidenciada por uma direção unitária, em que o interesse de cada integrante converge ao atendimento do interesse coletivo.” —STJ — REsp 1.776.865/MA, Min. Nancy Andrighi, 2020.

 

Na prática, isso significa demonstrar dois elementos: que há uma direção comum entre as empresas e que essa direção se traduz em integração real, seja operacional, seja patrimonial. Não é preciso haver controle acionário formal: basta que a integração seja real e perceptível.

 

Os sinais abaixo constroem essa demonstração.

 

a)     Controle e estrutura: Mesmos sócios e administradores em múltiplas entidades, holding com direção centralizada, contratos cruzados que revelam dependência hierárquica ou econômica.

b)     Presença de mercado: Marca, identidade visual e canal comercial unificados — o consumidor ou fornecedor não consegue distinguir com quem contrata.

c)     Infraestrutura compartilhada: Mesmo endereço, mesmo escritório contábil ou jurídico, sistemas de TI e equipes operacionais comuns.

d)     Histórico societário: Reorganizações frequentes entre as mesmas empresas ao longo do tempo revelam a lógica de controle do grupo.

 

⚠ Atenção:  Nenhum indício isolado é suficiente. O STJ não revisa conclusões sobre fatos e provas (Súmula 7), o que significa que a solidez do mapeamento inicial define o teto do incidente.

 

 

PASSO 2

 

Demonstrar o abuso: o requisito que não pode faltar

 

Reconhecer o grupo é necessário, mas não suficiente. A Lei da Liberdade Econômica (Lei nº 13.874/2019 incorporou ao Código Civil uma regra expressa:

 

“A mera existência de grupo econômico sem a presença dos requisitos de abuso não autoriza a desconsideração da personalidade da pessoa jurídica.” — Art. 50, §4º, Código Civil.

 

O abuso se prova por dois caminhos:

 

Etapa A — Confusão Patrimonial

 

É o caminho mais acessível — a prova é documental e objetiva, dispensando a demonstração de intenção. O credor precisa mostrar que, na prática diária, os patrimônios se misturam de forma sistemática: uma empresa pagando contas da outra sem contrato; transferências de ativos sem contraprestação real; empréstimos intercompany sem juros, sem prazo e sem garantia; caixa único compartilhado; contabilidade consolidada que não distingue cada entidade.

 

⚠ Atenção:  Inadimplência não é confusão patrimonial. O credor que apresentar apenas a prova da dívida impaga terá o IDPJ indeferido.

 

Etapa B — Desvio de Finalidade

 

Aplica-se quando há indícios de que a estrutura societária foi usada deliberadamente para prejudicar credores. Exige demonstrar o dolo, o que torna a prova mais difícil, mas o fundamento mais sólido.

 

Os sinais mais relevantes: encerramento formal da devedora com continuidade das operações em outra empresa do grupo; transferência seletiva de passivos — pagar as dívidas que convém e abandonar as demais; reorganização societária com timing suspeito, ocorrida exatamente quando as dívidas surgiram ou a execução foi ajuizada.

 

“Os atos praticados demonstram um desvio de finalidade e uma quebra intencional da autonomia patrimonial, beneficiando certas controladoras que se beneficiaram da seletiva negligência no pagamento de vultosa soma, excluindo sem transparência determinadas obrigações legítimas da filial dissolvida.” — STJ — AREsp 2.896.865/SP, Min. Moura Ribeiro, Jun/2025.

 

Na prática: o caso Grupo Tetzner

 

O caso do Grupo Tetzner — falência decretada pelo TJSP após denúncias de múltiplos credores — ilustra com precisão como os dois requisitos do art. 50 se provam na prática. No IDPJ instaurado por uma securitizadora de recebíveis (Processo nº 0001678-94.2020.8.26.0666), o juízo da Comarca de Artur Nogueira/SP reconheceu a presença simultânea de desvio de finalidade e confusão patrimonial.

 

a)     Quanto ao desvio de finalidade: foram identificadas mais de 400 duplicatas frias emitidas pelos sócios-administradores para aparentar lastro em operações inexistentes, conferindo aparência de legalidade a negócios que jamais ocorreram e ludibriando credores que anteciparam recebíveis de valor milionário com base nesses títulos. A contabilidade foi alterada três vezes em um único mês, sempre que os sócios eram instados a apresentar documentos.

 

b)     Quanto à confusão patrimonial: funcionários eram registrados em nome da pessoa física dos sócios enquanto prestavam serviços às empresas; o controle total sobre o dia a dia era exercido pelos requeridos sem qualquer separação entre o patrimônio pessoal e o corporativo.

 

O juízo foi direto: à toda evidência, a atuação das falidas se deu mediante conduta deliberada adotada por seus sócios-administradores em detrimento de terceiros.”

 

A desconsideração foi deferida, o patrimônio particular dos sócios foi alcançado e a decisão foi confirmada pelo TJSP (AI nº 2193629-70.2021.8.26.0000). O processo aguarda julgamento definitivo no STJ.

 

Para o mercado de capitais, o caso tem um dado adicional relevante: o requerente do IDPJ era uma securitizadora, a mesma categoria de credor que estrutura as operações discutidas neste artigo. Ou seja, o instrumento funciona; o que define o resultado é a qualidade da prova.

 

 

PASSO 3

 

Instaurar o IDPJ: sem atalhos

 

Demonstrado o abuso, o credor ainda não pode simplesmente redirecionar a execução para outra empresa do grupo. Existe uma regra processual obrigatória — e ignorá-la significa penhora nula, tempo perdido e crédito comprometido. O único caminho legítimo é o Incidente de Desconsideração da Personalidade Jurídica (IDPJ), previsto nos arts. 133 a 137 do CPC/2015. Ele existe para garantir que a empresa que será responsabilizada tenha direito de defesa antes de qualquer constrição patrimonial.

 

O STJ não deixa dúvida: sem o IDPJ, a penhora é nula, independentemente de quão integrado ou notório seja o grupo. Em 2023, anulou constrição de R$ 500 mil realizada sem o incidente (REsp 1.864.620/SP). Em setembro de 2025, reafirmou a obrigatoriedade mesmo no Sistema Unimed, estrutura com marca nacional e integração reconhecida (AREsp 2.966.205/TO). Em dezembro de 2025, cassou acórdão do TJSP que havia reconhecido responsabilidade de grupo sem analisar os requisitos do art. 50 (REsp 2.204.038/SP). A mensagem é inequívoca: não existe grupo econômico notório o suficiente para dispensar o rito.

 

O incidente tramita em cinco etapas: petição fundamentada com provas concretas → suspensão da execução principal → citação da empresa visada → prazo de 15 dias para defesa → decisão judicial recorrível por agravo de instrumento. A petição inicial é o documento mais crítico: uma peça genérica, sem suporte técnico, tende a ser indeferida de plano.

 

 

PASSO 4

 

A prova que decide o incidente

 

O STJ não revisa fatos e provas (Súmula 7). A batalha do IDPJ é vencida ou perdida nas instâncias inferiores. Um incidente mal instruído não apenas é indeferido — ele alerta o devedor e pode comprometer definitivamente a recuperação.

 

a)     Laudo contábil ou perícia especializada: demonstra, em números, a ausência de separação patrimonial real — o documento mais decisivo na maioria dos casos;

b)     Extratos bancários comparados: revelam fluxo financeiro cruzado sem amparo contratual entre as empresas do grupo;

c)     Quebra de sigilo bancário e/ou fiscal: expõe movimentações fora da contabilidade formal, útil quando há suspeita de esvaziamento às vésperas da execução;

d)     Documentos de sucessão operacional: mesmos clientes, fornecedores e funcionários em outra empresa do grupo provam que a operação não morreu com a devedora;

e)     Comunicações internas: atas, e-mails e mensagens que evidenciem direção centralizada reforçam tanto o reconhecimento do grupo quanto os elementos de abuso;

f)      Investigação patrimonial sistematizada: Infojud, Bacenjud, Renajud e Sintegra identificam quais empresas do grupo têm patrimônio real a ser alcançado.

Avaliação de Viabilidade por Cenário

Cenário

Viabilidade

Caminho

Devedora esvaziada com grupo ativo e caixa integrado

Alta

Confusão patrimonial — Etapa A

Encerramento da devedora com operação continuada em outra empresa

Alta

Desvio de finalidade — Etapa B

Empresas que são controladas e administradas pelo mesmo grupo familiar, possuem mesmo endereço, além de atuarem no mesmo segmento de mercado.

Alta

Confusão patrimonial — Etapa A – exige cautela + prova documental

Transferência seletiva de ativos durante a execução

Crítica / urgente

Desvio de finalidade + cautelar imediata

Reorganização societária recente com timing suspeito

Média-Alta

Desvio de finalidade — investigar reestruturação

Holding com subsidiárias contabilmente segregadas

Baixa

Reavaliar — base probatória insuficiente

 

O QUE O STJ CONSTRUIU

 

Três eixos de uma jurisprudência consistente

 

Os quatro passos acima descrevem o que fazer. Esta seção, contudo, expõe as razões pelas quais ele funciona e demonstra porque não existe atalho.

 

Os julgados do STJ sobre grupo econômico e IDPJ revelam algo mais do que uma lista de casos: revelam uma linha de raciocínio que se consolida há anos, testada em contextos diferentes e com resultado uniforme. Conhecer essa construção é tão importante quanto conhecer a lei, vez que é ela que define o que o juiz vai exigir, o que o advogado adverso vai argumentar e o que o tribunal irá, ou não, revisar.

 

São três eixos temáticos que o credor precisa dominar:

 

 

a)     Eixo 1 — Conceito e limites do grupo econômico

 

O STJ é firme desde 2018: pertencer ao mesmo grupo não gera solidariedade automática (AgRg no AREsp 549.850/RS). Em 2025, consolidou em tese: "o simples fato de sociedades empresárias integrarem o mesmo grupo econômico não autoriza a atribuição de responsabilidade solidária ou a desconsideração da autonomia patrimonial, exceto quando presentes os pressupostos do art. 50, caput, do Código Civil." Como a conclusão sobre a existência do grupo é matéria de fato, o STJ não a revisará (Súmula 7), o que reforça a necessidade de instrução robusta desde a origem.

 

 

b)     Eixo 2 — Requisitos materiais do abuso

 

O STJ reconhece dois caminhos de prova — e basta percorrer um deles. Confusão patrimonial: a mistura real de patrimônios (caixa único, ativos compartilhados, dívidas pagas pela empresa errada), dispensando-se a prova de intenção, ou Desvio de finalidade: uso intencional da estrutura para prejudicar credores. Em 2025, o STJ expandiu esse segundo caminho ao reconhecer a transferência seletiva de passivos como desvio de finalidade – pagar as dívidas que convém e abandonar as demais ao encerrar uma empresa (AREsp 2.896.865/SP). No mesmo ano, cassou acórdão do TJSP que havia responsabilizado empresas de um grupo sem examinar nenhum desses requisitos (REsp 2.204.038/SP).

 

A mensagem é direta: não basta apontar o grupo, mas provado qualquer um dos requisitos, o caminho está aberto.

 

 

c)     Eixo 3 — Garantias processuais do IDPJ

A jurisprudência do STJ sobre o tema é extensa, consistente e não deixa margem para interpretações criativas. No leading case (REsp 1.776.865/MA), a Corte estabeleceu que, mesmo em grupos com responsabilidade solidária potencial, o redirecionamento direto da execução viola o contraditório e a ampla defesa. Em 2023, foi além: anulou penhora de R$ 500 mil realizada sem a prévia instauração do incidente (REsp 1.864.620/SP) e, no mesmo ano, aplicou a Teoria da Aparência a grupos que se apresentam como unidade ao mercado, reconhecendo a integração, mas recusando o atalho processual (AgInt nos EDcl no AREsp 1.751.754/MG). Em setembro de 2025, o mesmo rigor foi aplicado ao Sistema Unimed, estrutura de abrangência nacional e marca reconhecida em todo o território brasileiro (AREsp 2.966.205/TO).

 

O recado é definitivo: não existe grupo econômico notório o suficiente para dispensar o IDPJ.

 

 

Tema 1.210 – A tese vinculante

 

Em 7 de maio de 2026, o Tema 1210 foi julgado pela 2ª Seção do STJ (REsp 1.873.187 e REsp 1.873.811, Rel. Min. Raul Araújo), fixando tese repetitiva obrigatória para todos os tribunais do país:

 

“Nas relações jurídicas de direito civil e empresarial, a desconsideração da personalidade jurídica requer a efetiva comprovação de abuso da personalidade jurídica, caracterizado por desvio de finalidade ou por confusão patrimonial, nos termos exigidos pelo art. 50 do Código Civil (Teoria Maior), sendo insuficiente a mera inexistência de bens penhoráveis e/ou de encerramento irregular das atividades da sociedade empresária.” 

 

A decisão foi por 4 votos a 3, a ministra Nancy Andrighi abriu a divergência, acompanhada pelos ministros Humberto Martins e Daniela Teixeira, defendendo presunção relativa de abuso no encerramento irregular com inversão do ônus da prova. A tese não prevaleceu.

 

O placar apertado é um sinal: o credor que se depara com empresa encerrada irregularmente não pode depender dessa presunção; precisa construir sua prova.

 

 

CONCLUSÃO

 

O IDPJ exige construção, não improviso

 

O caminho para usar o IDPJ com sucesso tem três etapas que precisam ser percorridas em sequência e com rigor: reconhecer o grupo, provar o abuso e instaurar o incidente com instrução técnica sólida. Presumir responsabilidade pelo grupo econômico não existe no direito brasileiro e o STJ cassará qualquer decisão que tome esse atalho.

 

Para gestores de FIDCs e securitizadoras, o grupo econômico não é apenas um risco a mapear na due diligence, é também um ativo de recuperação a ser acionado estrategicamente quando o crédito entra em default.

 

Quem conhece os requisitos, constrói a prova e usa o IDPJ no momento certo recupera mais. Quem improvisa, perde a penhora e, muitas vezes, perde o crédito.

 
 
 

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