Advocacia como amizade: a importância do consultivo jurídico no âmbito empresarial.
- Guilherme Siqueira

- 15 de dez. de 2025
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O título pode parecer engraçado, mas faz sentido para o simples objetivo que essas linhas traçam: abordar a importância de ter um consultivo jurídico de confiança no âmbito empresarial. Com isso, o leitor fica convidado a refletir não apenas sobre o papel técnico do advogado, mas sobre a natureza dessa relação, que, em muitos aspectos, se aproxima daquilo que Aristóteles chamou de amizade.
Na obra Ética a Nicômaco[1], encontramos uma rica concepção metafísica de justiça e o esboço da ideia de amizade enquanto cuidado e reconhecimento mútuo do bem do outro. Seguindo a compreensão do pensador grego, podemos entender que a amizade não só é presença prudente e companhia que orienta, mas também é uma voz que alerta antes que o erro se consolide, ainda que não seja de o agrado saber da possibilidade do erro ou que se está agindo errado.
A inspiração reflexiva do mundo antigo ocidental, acerca da amizade, ilumina de forma surpreendentemente atual a atuação da advocacia no ambiente empresarial contemporâneo.
A sociedade atual, de tempos líquidos[2], é marcada pela complexidade e pela aceleração dos fluxos econômicos, informacionais e tecnológicos. As cadeias produtivas se expandem, as organizações se interligam em redes[3] cada vez mais densas e a multiplicidade de agentes que permeia o ambiente empresarial forma o cenário típico de uma sociedade de risco[4]. Nesse contexto, é preciso entender que o risco deixa de ser uma exceção e passa a integrar o próprio modo de funcionamento da sociedade, principalmente a economia e os negócios empresariais.
A questão, com isso, é que com a emergência dos riscos, sobrenadam também as brechas: contratos frágeis, relações pouco definidas, operações realizadas às pressas e decisões tomadas com dúvidas. É justamente nesse espaço nebuloso que se instalam, silenciosamente, conflitos e práticas fraudulentas.
Em um cenário de risco, fazer algo com dúvida é sempre perigoso. É nesse ponto que a presença constante de um advogado de confiança assume papel essencial. Embora a advocacia empresarial seja frequentemente associada à solução de litígios, sua missão preventiva é tão ou mais relevante. A advocacia consultiva, quando integrada ao cotidiano dos negócios, funciona como um mecanismo de racionalização das decisões, de fortalecimento das bases contratuais e de fechamento das brechas que poderiam ser exploradas por agentes internos ou externos. Assim, o direito, quando chega antes do problema, atua como esse “amigo técnico” cuja função é orientar, proteger e lembrar os limites que muitas vezes se perdem na pressa.
Um dos reflexos mais concretos dessa atuação está na revisão e elaboração de contratos. Em um mercado hipercompetitivo, cláusulas mal redigidas, lacunas interpretativas ou previsões insuficientes de risco podem transformar questões simples em cenários perfeitos para conflitos e fraudes. O advogado empresarial, ao interpretar cada detalhe e estruturar documentalmente a necessidade dos agentes empresariais, contribui diretamente para a criação de relações comerciais mais seguras, transparentes e resistentes às problemáticas imprecisões.
Mesmo que não se confunda com programas formais de compliance, a advocacia consultiva integra um campo mais amplo de prevenção, que exige técnica jurídica, visão estratégica e compreensão das dinâmicas de risco. É uma atuação que reduz incertezas, previne danos reputacionais e fortalece a sustentabilidade institucional. E tudo isso ocorre antes que o problema apareça. Às vezes, antes mesmo que o problema seja percebido.
Por isso, como diz a letra de um clássico rock gaúcho: “Você precisa de alguém que te dê segurança, senão você dança”[5]. E isso é algo de extrema importância. Contar com alguém diante de uma sociedade de risco e depositar confiança para seguir em frente é um ato de amizade. Isso não é fácil, mas há caminho a ser construído.
Numa economia de negócios complexos, em que pequenas falhas estruturais podem gerar grandes consequências, ter o advogado por perto significa prudência, maturidade e proteção. É caminhar com alguém disposto a proteger os caminhos e identificar os riscos dos precipícios. É cultivar, como queria Aristóteles, uma espécie de virtude da amizade. Amigo, aquele, que quer o bem do outro e que, por isso, orienta, alerta e acompanha. No ambiente empresarial, essa amizade se traduz em segurança. E segurança, hoje, é sinônimo de sobrevivência.
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[1] ARISTÓTELES. Ética a Nicómaco. Tradução bilíngue de Maria Araujo e Julián Marias. Madrid: Centro de Estudios Políticos y Constitucionales, 7ª edição, 1999.
[2] O sociólogo Zygmunt Bauman escreveu sobre a sociedade contemporânea, descrevendo-a, sociologicamente, como volátil, fluida e instável. O pensador identifica tudo como transitório. As relações estão em contraste com a solidez da modernidade anterior, que era marcada por instituições e estruturas fixas. Hoje o mundo é de incerteza. Referência: BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Tradução de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
[3] Manuel Castells descreve uma nova estrutura social global, impulsionada pelas tecnologias da informação e comunicação, que tornam a base da organização social, econômica e cultural, redefinindo poder, e conectando o mundo de forma flexível e instantânea através de fluxos digitais. Referência: CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. Tradução de Roneide Venancio Majer. São Paulo: Paz e Terra.
[4] Para Ulrich Beck, a fase atual da modernidade apresenta perigos que não são mais naturais, mas sim produzidos pelas próprias atividades humanas. Assim, o risco passa a ser um componente incontrolável e que gera um modelo de sociedade baseado em incertezas. Referência: BECK, Ulrich. Sociedade de risco. Rumo a uma outra modernidade. São Paulo: Editora 34,
[5] Música “segurança”, gravada pela banda Engenheiros do Hawaii, no álbum Longe demais das Capitais, de 1986. Veja/escute: https://www.letras.mus.br/engenheiros-do-hawaii/45760/




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